Clarinete de Nuno Silva, Metropolitana e a música de Magnus Lindberg dia 20 de Maio no palco do CCB

Um concerto para toda a gente. “Não é preciso ser melómano para entender e gostar” de uma “música muito apelativa”, que junta “exuberância, intimismo e magia”. Quem o diz é o clarinetista Nuno Silva, que, com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, sobe este domingo ao palco do Grande Auditório do CCB, no concerto em que o compositor finlandês Magnus Lindberg volta a oferecer ao público todo o seu ecletismo e criatividade. 



A música de Magnus Lindberg é genuinamente eclética. Tem influências tão distintas como Luciano Berio ou Einstürzende Neubauten, mas coincide numa criatividade única que busca com minúcia as combinações sonoras que o tornaram num dos compositores mais prestigiados da atualidade. 


Foto de Philip Gatward 

O percurso criativo de Magnus Lindberg é frequentemente demarcado numa linha de evolução que se estende deste a segunda geração das vanguardas modernistas do pós-guerra a uma matriz neoclássica com raízes na primeira metade do século XX. Pelo meio, assinala-se o período em que assimilou as texturas tímbricas e harmónicas da música espetral. Mas o compositor finlandês, nascido em 1958, não se reconhece na simplificação desta leitura. Afinal, uma identidade artística genuína subsiste ao passar do tempo e transcende as atribuições de estilo. A atitude exploratória não enjeita caminhos novos, mas a «pergunta original» pode permanecer sempre a mesma. 

Kraft foi a obra que abriu caminho à afirmação de Magnus Lindberg enquanto compositor de relevo no panorama internacional. Escrita durante a primeira metade dos anos 1980, distingue-se por uma impetuosidade física e expressiva que desafia qualquer orquestra, assim como pela manifesta disponibilidade para explorar as condições limite dos recursos utilizados. 

Nos anos que se seguiram, as suas criações foram assimilando novos procedimentos. A atenuação das afinidades modernistas proporcionou uma apreensão mais acessível da sua música, ainda que nunca tenha abdicado de uma postura eminentemente experimental. Já em finais da mesma década, emergiram sonoridades texturais e o paradigma espetral conduziu-o à deliberada coexistência entre Consonância e Dissonância. 

Já em Aura, dedicada em 1994 à memória de Witold Lutosławski, impôs-se um espírito de síntese com apetência pela linearidade discursiva, pela inteligibilidade dos processos e da construção formal. Os fraseios explícitos, curtos e de cariz concertante sobrepunham-se a vagas de fundo relativamente estáticas, com transições lentas e graduais. Despontava uma concepção de desenvolvimento orgânico e progressivo das ideias musicais, cuja importância é notável em Arena, de 1996. Reconhece-se nos elementos apresentados de início os motivos germinais de toda a obra. E à medida que se aproximou o novo século, as melodias começaram a ter cada vez maior protagonismo na música de Lindberg, por vezes com amplos uníssonos orquestrais e combinações contrapontística harmoniosas. O Concerto para Clarinete, de 2002, é particularmente representativo disso mesmo. 

Mais recentemente, em 2013, Lindberg fez estrear o seu segundo concerto para violoncelo e orquestra. Em pouco mais de vinte minutos de música, lembra todas aquelas etapas. São três andamentos tocados sem interrupções e que parecem depurar a experiência acumulada ao longo de uma vida, mas com o inevitável denominador comum: seguir a bússola que as novas combinações sonoras insistem em baralhar. 

Neste seu regresso a Portugal, o compositor finlandês Magnus Lindberg volta a oferecer ao público todo o seu ecletismo e criatividade, com duas partituras de 2002, que o próprio vai interpretar à frente da Orquestra Metropolitana de Lisboa: Chorale e Concerto para Clarinete



Ao músico Nuno Silva, professor de clarinete na Academia Nacional Superior de Orquestra (ANSO), uma das três escolas da Metropolitana, caberá o papel de solista de um concerto em que mostrará todo o virtuosismo do instrumento. 

Quem for ao CCB no domingo vai poder assistir a uma grande obra de música muito apelativa e eclética. Não é preciso ser um melómano e um especialista em música erudita para entender e gostar”, garante Nuno Silva, para quem o concerto terá “um som com uma dinâmica fortíssima, com bastante exuberância, um toque de magia e intimismo e até uns laivos de neorromantismo”. 

As duas partituras de Magnus Lindberg, artista associado da Metropolitana nesta temporada, foram escritas em 2002, mas “apesar disso”, nota Nuno Silva, são “muito melódicas e entram facilmente no ouvido”. 

Na estética musical do final do século XX e início do século XXI, a melodia nem sempre é o mais importante. Não é isso que se procura. Por isso é que digo que este concerto tem laivos de neorromantismo, com um aspecto quase psicadélico, reforçado com uma orquestra enorme em palco e com muita exuberância”, afirma. 

No Concerto para Clarinete, Nuno Silva terá oportunidade de interpretar uma obra que em 2009 foi tocada com a Metropolitana por Kari Kriikku, o clarinetista com quem Lindberg compôs a obra. “Eu estive nesse concerto, toquei com Kriikku, falei com ele sobre o concerto. Desta vez, vou ter ocasião de fazer a minha leitura das obras, a minha abordagem a este texto magnífico”. 

O professor da ANSO lembra que “se houver dez músicos a interpretar uma obra, ela será tocada sempre de formas diferentes. Ainda para mais um texto genial como este”. 

O programa deste domingo no CCB, para o qual ainda há bilhetes disponíveis (a preços que variam entre o 5 e os 20 euros), encerra com o Concerto para Orquestra, do polaco Witold Lutoslawski


Programa
M. Lindberg Chorale 
M. Lindberg Concerto para Clarinete 
W. Lutosławski Concerto para Orquestra 


Orquestra Metropolitana de Lisboa 
Nuno Silva clarinete 
Magnus Lindberg maestro 

Domingo, dia 20 de Maio, às 17h00, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém 




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