«O Outro de Nós» estreia-se no palco do Grande Auditório do CCVF a 26 de Maio

Centro Cultural Vila Flor recebe de braços abertos a estreia absoluta da mais recente criação do grupo Outra Voz, projeto artístico singular que permaneceu após Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura. 


Créditos Ivo Rainha 

O dia 26 de Maio é sinónimo de um momento singular em Guimarães. A comunidade junta-se, a comunidade pensa e reflete. A comunidade apropria-se das (infinitas) possibilidades que a arte possui e expressa aquilo que tem dentro de si. A comunidade tem Outra Voz e sobe ao maior palco do Centro Cultural Vila Flor (CCVF) para apresentar “O Outro de Nós”, na procura de entender o mistério que são os outros que existem em si e o mistério que é existir nos outros. O espectáculo tem início às 21h30 no palco do Grande Auditório do CCVF



Créditos Ivo Rainha 

O Outro de Nós” é uma caminhada na orla do abismo. Quantas pessoas têm a coragem de procurar entender o mistério que são os outros que existem em si? O mistério que é existir nos outros? Não são assim tão poucas. Em primeiro lugar, o grupo deixou-se inspirar pelas palavras do Raul Brandão para desnovelar as nossas próprias palavras, pelos pensamentos do Bernard Stiegler, do Gil, do Fals-Borda, para deixar fluir os seus próprios pensamentos. Entoou e ouviu os arquivos vivos das memórias sonoras que nos rodeiam e tantas outras vozes que completam as peças deste enorme puzzle, que somos nós e os outros. 

Depois da fome, da miséria, do fascismo e da guerra, das escravaturas do passado e das austeridades do presente, talvez tenha sido enquanto cantavam ao desafio na sala do museu, que tenham encontrado a coragem para olhar para o abismo e dar um passo em frente. Agora, felizmente, não têm outra alternativa que não, juntos, voar. Num mundo onde se globaliza a precariedade e a fragilidade da condição humana torna-se urgente refletir e agir coletivamente para construir uma nova cultura. 


Créditos Ivo Rainha 

O Outro de Nós” apresenta-se como uma reflexão sobre o mundo e sobre o papel dos seus atores (cidadãos) em interação com ele. As experiências de existir, os anseios, os desejos e os constrangimentos daqueles que fazem parte do projeto Outra Voz, constituem a matéria base desta nova criação. Em resposta ao desejo do coletivo de expandir a sua exploração sobre o movimento, a voz e o corpo, invadindo espaços de fronteira entre artes performativas, o objetivo deste projeto passa por potenciar o hibridismo e assegurar uma contínua autonomização do grupo no futuro. 

É a partir da memória, da criatividade e dos contributos dos participantes que, desde o início de 2017, se tem vindo a alicerçar esta nova criação. “Os ensaios duram há cerca de um ano e meio e acontecem com uma regularidade mensal, num ensaio de três horas, para facilitar a presença de todos. (...) São pessoas que atravessaram várias gerações, temos pessoas que viveram no tempo do fascismo, que foram à Guerra Colonial, viveram a Revolução do 25 de Abril, e que trabalharam em milhentas ocupações”, aponta José Eduardo Silva, encenador convidado pelo grupo para esta criação. 

É preciso centrar aquilo que se faz nas pessoas e perceber com elas o que é que querem fazer ou porque é que decidem juntar-se em grupo para cantar. Sair da linha em que todos os cidadãos são mais ou menos colocados enquanto consumidores de alguma coisa, inclusivamente de cultura e de bens culturais. Aqui, o caso é o contrário. É conseguir encarar os cidadãos, não como consumidores, mas como produtores de cultura, da sua própria cultura”, aponta ainda José Eduardo Silva. No final da apresentação em palco, está ainda reservado um momento em que público e artistas se juntam numa conversa informal em torno desta criação no foyer do auditório. 

Outra Voz” é um grupo de comunidade dedicado à expressão e exploração vocal, do trabalho do corpo e da voz em torno do sentido de dar outras dinâmicas diferentes à voz humana. “Nós não interpretamos os dois fenómenos como coisas isoladas, mas antes como um todo e encaramos a voz humana como um músculo. O corpo e a forma como este se distorce pode ser aproveitado como diversas qualidades daquilo que é uma voz humana. Não é propriamente aquele exercício de cantar de uma forma retilínea, mas aproveitar os movimentos para dar outras dinâmicas à nossa voz”, comenta Carlos Correia, diretor artístico da Outra Voz

Criado a 18 de Julho de 2010, esta iniciativa artística resultou de uma parceria entre as áreas de Comunidade e Serviço Educativo da programação da Guimarães 2012 e constitui o único projeto artístico que permaneceu para além da realização da Capital Europeia da Cultura. A “Outra Voz” tem a sua atividade regular de ensaios distribuída por diferentes freguesias do concelho de Guimarães (Academia de Bailado de Guimarães, ADCL de S. Torcato, Casa do Povo de Briteiros, Junta de Freguesia de Lordelo, Junta de Freguesia de Pevidém e Junta de Freguesia de Nespereira). Com uma formação de mais de cem pessoas, a Outra Voz é um ponto de encontro entre pessoas, mas também um genuíno fenómeno de autonomia e auto-organização efetivamente comunitária. A Outra Voz é uma e outra voz unidas na amplificação do resíduo de memória que é pigmento da voz som, palavra e canto, corpo, movimento e espaço. A Outra Voz é, sobretudo, um local onde todos podem partilhar a sua voz com os outros. 

O Outro de Nós”, criação original da “Outra Voz” dirigida por Carlos Correia e José Eduardo Silva com direção musical de Marisa Oliveira, é uma coprodução A Oficina com o apoio da Câmara Municipal de Guimarães. 

Os bilhetes para este espectáculo têm o custo de 10,00 euros ou 7,50 euros com desconto, encontrando-se disponíveis nas bilheteiras do Centro Cultural Vila Flor (CCVF), do Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG) e da Casa da Memória de Guimarães (CDMG), bem como nas Lojas Fnac e El Corte Inglés, e via online em www.ccvf.pt e oficina.bol.pt






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