Até 16 de Junho, os palcos dos Festivais Gil Vicente pertencem aos criadores portugueses

Decorrida uma semana plena de fulgor teatral em Guimarães, a criação nacional continua a preencher os palcos do Centro Cultural Vila Flor e a convocar o público para uma exploração conjunta desta arte que é de todos (e que todos tem o poder de reunir). Tónan Quito, Estelle Franco, Mariana Ricardo, Masako Hattori, Paula Diogo, Sónia Baptista e Cristina Carvalhal na 2ª semana da 31ª edição dos Festivais Gil Vicente. 


© Filipe Ferreira 

A abrir a segunda ronda de espectáculos dos Festivais Gil Vicente, Tónan Quito traz-nos uma história de amor. “Casimiro e Carolina” (14 de Junho), de Ödön von Horváth, fala sobre as sequelas da crise de 1929, a fazer lembrar esta que ainda atravessamos. A depressão é grande, o desemprego elevado, mas, apesar das medidas de austeridade tomadas pelo governo, as personagens encontram-se numa festa da cerveja para se divertirem, beberem e esquecerem os problemas. Casimiro e Carolina é um casal que se ama – ele está desempregado, ela trabalha – até que entram em ruptura, discutem, separam-se e a ferida fica aberta. O desespero do qual fugiam fica visível. Como ficaremos nós quando estas políticas passarem? Há esperança? É possível amar em tempos de crise? Não poderia haver melhor altura para fazer “Casimiro e Carolina” do que esta em que vivemos, nestes dias tão violentos. 


© João Tuna 

Na sexta-feira (15 de Junho), Estelle Franco, Mariana Ricardo, Masako Hattori, Paula Diogo e Sónia Baptista desafiam-nos a refletir sobre o modo como a memória opera nas nossas vidas em “Sobre Lembrar e Esquecer”. Vindas de lugares e experiências distintas, estas cinco criadoras-intérpretes estabeleceram um território de partilha para refletir sobre aquilo que nos move, sobre o mundo que nos rodeia. E sobre aquilo que esquecemos. “Sobre Lembrar e Esquecer” é a primeira peça de uma trilogia, inspirada pelo livro “Les Formes de l’oubli” do antropólogo Marc Augé, que se completará com “A Estação de Outono” e “Paisagem”. Três espectáculos para refletir sobre o modo como as lembranças operam nas nossas vidas: o que escolhemos recordar ou esquecer ou o que somos capazes de recordar e esquecer. Por hábito, por condicionamento, por autopreservação, por acidente. Nós somos as nossas memórias. E se as nossas memórias não são mais do que um produto da nossa imaginação (como disse André Breton), o que somos nós então? 


Direitos Reservados 

O elenco de espectáculos fecha com “Perplexos” (16 de Junho), de Cristina Carvalhal, uma peça em que a realidade parece estar constantemente a ser reformulada, raiando o absurdo. Os casais, as férias, os filhos, as empregadas domésticas, Darwin e a lei do mais forte, a sombra nazi ou um baile de máscaras, são alguns dos temas presentes nesta espécie de comédia de costumes, assombrada por Pirandello. As personagens multiplicam-se. Mas afinal, o que é que é real? Talvez apenas uma certa apetência pelas grandes questões filosóficas que nos perturbam desde Sócrates. Quando, em 2011, encenou “A Pedra” de Marius von Mayenburg, Cristina Carvalhal ficou entusiasmada com a perspectiva escolhida por Mayenburg de abordar a narrativa a partir da plasticidade da memória, não só a sua capacidade seletiva, mas também a sua capacidade de reinvenção. “Perplexos” parece ir ainda mais longe nesta questão da memória, e consequentemente, da identidade, como se cada nova cena nos convocasse a esquecer, ou a permanentemente reconfigurar o presente, negando mesmo as memórias mais imediatas. E assim termina esta celebração da arte do teatro, no palco maior do CCVF que, ao longo de duas semanas, se entregou por completo à criação teatral nacional. 

O programa da segunda semana dos Festivais Gil Vicente reserva ainda várias apresentações dos alunos e ex-alunos da Licenciatura em Teatro da Universidade do Minho que se juntam ao programa de atividades paralelas do evento. Nestes Festivais Gil Vicente criam-se relações, lançam-se questões em busca de respostas, abrem-se caminhos de encontro, comunhão e partilha, para que o público participe e se inquiete em cada descoberta. 


Os bilhetes para a segunda semana de espetáculos encontram-se à venda nas bilheteiras do Centro Cultural Vila Flor (CCVF), do Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG) e da Casa da Memória de Guimarães (CDMG), bem como nas Lojas Fnac e El Corte Inglés, e via online em www.ccvf.pt e oficina.bol.pt

O preço dos ingressos varia entre os 5,00€ e os 7,50€. Os alunos que frequentam Escolas de Artes Performativas têm um preço especial de 4,00€ nos espectáculos. O programa completo dos Festivais Gil Vicente pode ser consultado em www.ccvf.pt





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